25.8.09

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Sentiu por entre os dedos a ponta do cigarro queimar-lhe a pele. Foi desperta de seu devaneio matutino, sorriu e voltou-se para dentro da varanda. Agitou a mão esquerda, logo em seguida jogando o cigarro bem distante. A passos lentos entrou em casa, ao passo que um vento gélido lhe acompanhava. Segurou nas pontas do casaco fechando-o mais em seu corpo esguio, olhou para trás quase sem coragem de fechar a porta que permitia aquele vento de fim de inverno entrar. Soltou as mãos e puxou as maçanetas, antes que o vento trouxesse consigo a chuva para dentro do ambiente termicamente aconchegante.
Respirou fundo antes de sentar-se na poltrona e a girou, para poder visualizar em todo seu esplendor aquele espetáculo que tanto sentira falta. As gotas de chuva caíam como se mergulhassem nos vitrais da casa, atrás um sol nascente mesclado a delicados tons de azul e branco. As nuvens do horizonte eram belíssimas, quase como os tais algodões-doce que lembrava da infância. Puxou uma coberta grossa para cima de seu colo enquanto suas pernas se cruzavam em uma posição tão comum para ela.
Um sorriso desenhou-se em sua face ao sentir aquele doce aroma de capuccino exalando da cozinha, esticou o corpo e retorceu o pescoço para ver corretamente, sim. O cheiro vinha exatamente dali, junto com o gosotoso odor de pão de queijo. Cerrou os olhos, apenas ouvindo os barulhos que orquestravam seu dia. Sorriu. Como que para despertá-la de mais um devaneio, uma caneca apareceu em sua frente. Ela abriu totalmente os olhos e agradeceu pelo carinho, pegou-a daquela mão delicada e tomou um grande gole. Fechou seus olhos e soltou um murmuro de alegria, como conseguira viver tanto sem aquele ar tão agradável. Tão logo terminou de beber o líquido a ela oferecido, segurou aquela mão tão encantadora. Lhe mirou diretamente, como que a questionar se era isso mesmo que queria. Com um pequeno gesto, os lábios femininos lhe responderam, sem que palavras fossem ditas.

3.8.09

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- Não, você não está bem - a voz delicada se pôs grossa. Ela levantou o olhar da xícara para os olhos que a miravam de forma estranha.
- Estou sim, - sua voz estava calma, seu olhar perdido, ele notou - apenas estou pensativa. Esse mundo me enoja às vezes, - ela respirou fundo antes de completar a frase - quase todo o tempo.

Olhou para a enorme vidraça, ele acompanhou seu olhar até um jovem casal discutindo, logo ao lado uma criança gritava com a mãe, o pai acendia seu cigarro e virava-se de costas; enquanto isso um acidente ocorria pouco depois da calçada, um carro esportivo encostava em uma motocicleta, derrubando-a ao chão em fração de segundo. O povo se amontoava ao redor, cada um pelos seus motivos. Um barulho alto e um jovem de estatura média sai do carro, sua espressão revoltada demonstrava seus poucos vinte anos e maturidade infantil.

Aquele olhar masculino se encontrou com o dela, brevemente espantado, ela apenas sorriu e virou seu rosto para o interior do café. Ao focalizar-se ele a acompanhou, um casal sentado à mesa na área para fumantes, ela estava com os cotovelos apoiados na mesa, encarando-o com um olhar nada amigável enquanto lentamente erguia as sobrancelhas; ele a olhava com certa curiosidade, os ombros soltos e uma das pernas cruzadas em cima do joelho, tragou o cigarro e logo soltou a fumaça apenas escutando o que a mulher lhe dizia. Na mesa ao lado, dois adolescentes seguravam a mão um do outro, com olhar delicado e preocupado, o uniforme do colégio mostrava a pouca idade. Um pouco mais adiante, já no balcão, a garçonete mostrava sinais de cansaço, passava as costas da mão esquerda pela testa com frequência. Enquanto revirava os olhos a cada vez que se virava para um cliente, as olheiras a incriminavam, mostrando a insônia forçada da noite anterior.

Aquela voz calma e o olhar perdido se voltaram para ele, fazendo-o refletir em cada detalhe que seus olhos podiam captar.

- Imagine, mesmo que por um segundo não existisse nem céu, muito menos o inferno. O que seria do mundo se as pessoas nem ao menos temessem o julgamento final?